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ilustre (des)conhecido


Usain Bolt e a mudança de padrões

Quando o jamaicano Usain Bolt assombrou o mundo nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, e ainda mais agora no Mundial de Atletismo recém-terminado em Berlim, capital da Alemanha, vi certa sensação estranha no ar, algo como a história sendo reescrita e, de fato, ela estava mesmo ganhando novos contornos e novos capítulos.

 

Capítulos estes que tenho certeza não devem parar por aqui, não naqueles 9s58 inacreditáveis há pelo menos 10 anos que Bolt estraçalhou na prova de 100 metros rasos do Mundial de Berlim. Além, claro, dos 19s19 nos 200 metros rasos, prova que também detém o recorde absoluto. Eu não sei quanto a vocês, mas o jamaicano será, daqui para frente, um divisor de águas no esporte mundial.

 

Com quase 1,90 e passadas que chegam a 2,9m, Usain Bolt é daqueles corredores que aparecem de tempos em tempos e que nos fazem pensar em como a preparação física evoluiu de uns tempos para cá. Não somente isso, na verdade. Soma-se a eficiência na preparação tática, nos treinamentos e em outros milhões de quesitos que só um atleta de ponta tem que suportar – o mesmo caso se aplica a Michael Phelps e César Cielo.

 

Mas, de fato, o que aconteceu nas pistas de Berlim, além de encantarem o mundo, revelou o que os treinadores e especialistas temiam e que, com a consagração de Bolt, será um pré-requisito para as novas gerações de atletas. Assim como aconteceu em outros esportes, o atleta de força e de explosão terá sua constituição física modificada a partir de agora.

 

Sempre tive em meus pensamentos que o futebol e o atletismo eram os esportes mais democráticos e, por vias de decisão, talvez até os mais justos. Hoje, não penso mais assim em relação ao atletismo. Não nos atletas de provas curtas e tiro rápido. Não mesmo. Hoje, quem quiser ser este tipo de atleta não poderá ter menos de 1,90m.

 

Não adianta, a preparação física é tanta, que aliada ao talento, faz verdadeiros milagres. Um Michael Johnson, recordista por vários anos dos 200m e que detinha um tempo considerado extremamente difícil de ser quebrado, hoje seria estraçalhado pelo Bolt. Assim como o Cielo, que inacreditavelmente numa prova de 50m livres conseguiu a façanha de “sobrar” e chegar bem antes dos demais.

 

Hoje, o atletismo ainda pode ser considerado um esporte democrático por vias das outras modalidades: Pentatlo, Heptatlo, Declato, Arremesso de Dardo, de Peso e de Martelo ou atletas fundistas ainda podem ter como característica o baixinho, o grandalhão ou o desengonçado que se endireita por conta da prática atlética. Mas não os de 100 e 200m. Com menos de 1,85m você nem deve chegar a ouvir o tiro de largada.

 

Se pegarmos por outros esportes, como o vôlei, o basquete e a natação, eu no alto de meus 1,72m (sic!) não conseguiria sequer passar em frente às piscinas e às quadras destas peneiras. Se tivesse nascido nos anos 60, poderia me aventurar como armador de basquete, nadador ou, quem sabe, levantador em algum time de vôlei do meu bairro.

 

No vôlei de hoje em dia, com muito custo, tentaria, se preciso fosse, a posição de líbero – a que chamo respeitosamente daquela de Responsabilidade Social do esporte, pois ela é que ainda sim aceita os baixinhos, os desengonçados e até os gordinhos.



Escrito por Marcos Thadeu às 18h47
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