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ilustre (des)conhecido


Futebol fora das quatro linhas

Tem se discutido à beça a realização da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Muitos são a favor. Outros milhares, contra. Uns dizem que será benéfico, pois impulsionará as melhorias em obras de infra-estrutura, como transporte. Outros tantos defendem a ideia de que a Copa será fadada à corrupção e às artimanhas que há tempos conhecemos no País.

 

Certo ou errado, apto ou não, o Brasil vai sediar a Copa. Ponto. Mas paremos para pensar o porquê da incredulidade de alguns e da esperança de outros. Sabemos que a Copa do Mundo tem regras rígidas que capacitam ou não um país a sediá-la. Regras que a FIFA faz questão de seguir à risca em quase todos os mundiais, pelo menos desde 94.

 

Pensando nessas regras e normas, nessas burocracias até certo ponto absurdas, penso realmente que o futebol fora das quatro linhas ficou bastante chato e fresco demais. Time de futebol que não joga em determinado estádio, pois o vestiário é pequeno; final de campeonato que não pode ser disputada em certo local, pois não atinge o número mínimo de torcedores.

 

Só para citar alguns casos; por exemplo, em 2003 o Santos não pôde jogar a final da Libertadores na Vila Belmiro porque o estádio não tinha o número mínimo. Mas, o mais inacreditável é que a semifinal, que também é de suma importância (e de risco), pôde ser jogada. Estranho, não? Culpa da FIFA, que fala que os estádios têm que ter isso, aquilo e não sei mais quantos requisitos.

 

Bons tempos, dizem os mais antigos, o futebol nos anos 50, 60 e 70 em que gandulas eram crianças, não uniformizadas e não sugestionadas a “segurar a bola” para o time da casa. Tempos em que repórteres não vestiam colete amarelo escrito “imprensa” e, antes de profissionais, eram simplesmente os “torcedores mais privilegiados” do campo, aqueles que se sentavam ao lado da trave.

 

Eram privilegiados até certo ponto, é bem verdade, pois acho que não era fácil tomar uma bolada depois de um chute do Pepe, “o canhão da Vila”, do Roberto Rivelino ou do Canhoteiro. Mas, mesmo assim, eram os profissionais da imprensa uns privilegiados, a ponto de entrevistar um jogador dentro do campo após um gol ou dele ter sido expulso, sem que o árbitro e/ou a torcida adversária se incomodasse com isso.

 

Hoje, ao contrário, existem competições em que os repórteres não podem nem pisar no gramado no intervalo. Alguns burlam e fazem suas entrevistas na miúda, mas sem empunhar seus rádios, microfones, lápis ou caneta. Aliás, diz a FIFA que cada estádio tem que ter uma sala de imprensa para acomodar muitas dúzias de jornalistas, internet de banda larga, red label à vontade, garotas suecas de topless e sabe-se-lá o que mais.

 

Inacreditável, porém, é que essas regulamentações da FIFA não se estendam ao futebol feminino, ao futebol de salão – que muitos insistem em ser hoje futsal – e outras competições, como o Mundial Interclubes ou qualquer outra competição. Por que antigamente, antes da Copa de 94, essas regras eram mais brandas? Certo que o futebol é um caça níquel, em que há muitos interesses e blá blá blás, mas elevar as condições para neutralizar cidades a sediarem competições acho um tanto mesquinho.

 

Pronta ou não, a África do Sul vai sediar a Copa do Mundo. Não sabemos se as instalações no país africano – o primeiro a sediar um Mundial – serão em acordo com as especificações da FIFA. E se não for, das duas, uma: ou a entidade máxima do futebol revê seus conceitos em relação às regulamentações e às exigências, ou outro mundial em solo africano só daqui uns 100 anos, no mínimo.

 

Quanto ao Brasil, sei que as melhorias devem ser feitas, mas não sabemos a que preço. Porém, elas devem sair do papel unicamente por causa do evento, e não por conta do Estado, que há tempos promete e por ingestão e/ou incapacidade não cumpre. Se tiver que haver esse impulso, essa condição para a melhoria, que mais Copas sejam bem-vindas. Infelizmente.



Escrito por Marcos Thadeu às 16h32
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