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ilustre (des)conhecido


Cortar o cabelo

Se existe uma atividade desgastante, irritante e notavelmente intrigante é a de cortar o cabelo em um lugar que não se conhece. Verdade. Você que passa anos a fio cortando sempre no mesmo lugar, com quem já conhece seu gosto, seu estilo. Com quem você, principalmente, tem a consideração por chegar à barbearia (pois salão de beleza é coisa pra mulher) e pedir que o barbeiro (pois cabeleireiro é coisa pra mulher) somente fazer seu serviço e nada mais.

 

Mas hoje não. Hoje você acordou de manhã disposto a mandar sua “juba de leão maltratado” às favas. Hoje que você tomou seu banho e percebeu que realmente seu cabelo estava grande e que precisava de um trato – um corte, talvez. Mas hoje não. Você sai sempre tarde do trabalho e quando chega ao dito “barbeiro de confiança” ele já está recolhendo dúzias de fios que caíram no corta-corta das tesouras e das máquinas.

 

Por isso, o jeito é apelar para o desconhecido, para o inimaginável ou para a pura sorte. Aconteceu comigo. Aqui pelas ruas da Vila Madalena, mais precisamente entre a Fradique Coutinho e a Pedroso de Moraes. Um quadrilátero em que eu deveria observar, analisar e, com a mais naturalidade das ações, adentrar a qualquer barbearia, mesmo a esmo, torcendo para que o profissional das tesouras que está lá pelo menos faça o serviço de pleno acordo.

 

Porém, mesmo que sua vontade seja dos cortes mais simples, a dúvida impera. Mesmo que você queira apenas raspar se cabelo com a máquina nº 4, não adianta: os sentimentos de que “vai dar merda” sempre vêm. Você pensa que nessa hora que o barbeiro possa errar o número da máquina e começar a cortar à skinheads, usar amônia e deixar seu cabelo todo branco como o Sivuca ou, quem sabe, mais catastroficamente falando, cortar sua jugular ao espirrar enquanto manuseava a navalha. Tudo pode acontecer numa hora dessas.

 

E a título de preocupação e para o bem da verdade, nesse caso entregar suas “madeixas desleixadas, mal cuidadas e sempre despenteadas” a qualquer um é um desafio e tanto. Um acerte ao alvo ou ganhe na mega sena. Desafio tamanho que comparo, sem nenhuma indiscrição, à primeira consulta das meninas ao ginecologista ou dos senhores com mais de 50 anos ao temível “homem do dedo”.

 

Ok. Você perambula pelas ruas e avenidas do dito quadrilátero e sente a insegurança que chega a esfriar a barriga. Você não quer entrar em um ambiente com muito mais mulher do que homem – aqui vale uma explicação para que as coisas fiquem bem claras: na verdade, transpõe-se a condição de proteção, visto que você não quer ficar ouvindo sobre o último filme do Thiago Lacerda ou do Jude Law, ou como a Ana do BBB é desmiolada ou a Priscila é pervertida ou como se faz a maquiagem da novela das oito.

 

Você quer apenas sentar e cortar o cabelo. Será que é pedir muito? É, na verdade. Num súbito momento você pensa em ligar para um amigo seu que mora nas redondezas. Mas esse pensamento é logo cortado (sic!) quando você lembra que esse seu amigo é o [Diego] Tadeu e que ele possui um topete dos mais ridículos, sem contar do seu jovial sofrimento de uma calvície prematura logo perto dos seus 25 anos.

 

A análise continua e seu desespero aumenta tanto quanto cresce seu cabelo. Você roda, roda e não acha “o bendito lugar mais ou menos confiável”. Nesse meio tempo você descobre que uma das barbearias do bairro tem vários Playstation 2 para entreter a criançada durante o corte. É nesse momento em que você se anima, mas logo vem a decepção, pois é claro que você não está com o seu Memory Card na carteira, o que possibilitaria a continuação da Máster League com o Milan.

 

Nesse exato instante você saca do bolso seu celular, descobre que faltam apenas cinco minutos para acabar a sua hora de almoço, você não achou o lugar “de mais ou menos confiança” e que seu cabelo continua a incomodar. Atordoado por não conseguir completar uma tarefa simples – mas que por conta da situação torna-se um horrível entrevero – você volta ao escritório e escreve no blog.

 

E olha que eu nem cogitei a hipótese de “entregar” meu cavanhaque, pois aí o sofrimento seria bem maior.



Escrito por Marcos Thadeu às 14h43
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