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O recorde
Grande parte das notícias sobre quebra de recordes, para falar a verdade, eu nem leio. Não me interessa se um garoto de 13 anos encheu 125 balões com o nariz em dois minutos ou que uma penca com 60 bananas pode se transformar num novo recorde ou quem sabe se um cara atirou o celular a 17 metros e 25 centímetros.
Recorde, para mim, são os quebrados durante a Olimpíada e os campeonatos ocorridos mundo a fora, e olhe lá. No entanto, um recorde em especial merece ser citado e muito aclamado.
Mesmo habitando o menos populoso país da América do Sul, os uruguaios deram uma verdadeira aula aos grandes países do mundo. Sim, mesmo tendo apenas quatro milhões de habitantes (menos da metade da cidade de São Paulo, para efeito comparativo), os hermanos ao Sul do Brasil mostraram a verdadeira técnica do bom churrasco.
Antes de qualquer coisa, churrasco que se preze tem que ser grande. Não importa qual a companhia: família, amigos, colegas de trabalho, prostitutas da Rua Augusta, lutadores de sumo ou monges tibetanos. Churrasco que é churrasco tem que ser grandioso e espalhafatoso. Nada do tipo: “vem pra cá, vamos assar uma carninha”. Não, nada disso. A frase tem que ser: “cara, vem pra cá, comprei umas costelas, tem nove caixas de cerveja na geladeira, dois tipos de pinga mineira, picanha, lingüiça, maminha, fraldinha, leitão à pururuca”.
Nota do blog: Ah, muitíssimo importante! Churrasqueiro que é churrasqueiro detesta uma salada de maionese presente ao churrasco. Outra coisa deplorável é a quantidade de arroz que algumas pessoas insistem em fazer. Tem gente, sem noção alguma, que prepara até macarrão, lasanha, feijoada e coisas do gênero durante um churrasco. O cúmulo. Para o bom churrasqueiro, no máximo uma salada de folhas para acompanhar. E só!
Churrasco que é churrasco começa cedo. Sim, cedo e termina tarde, bem tarde. Caso seja durante um almoço de domingo, churrasqueiro que se diz churrasqueiro começa, pelo menos, duas horas antes dos outros convidados chegarem. E não por pura conveniência, não. Churrasqueiro que é churrasqueiro chega cedo para, além de temperar a carne, montar e acender a churrasqueira, começar a beber antes dos outros convidados. Param por duas horas para assistir o futebol na TV e depois voltam para frente da churrasqueira. Isso, sim, é a nobre arte da churrascaria.
Voltando aos uruguaios, mestres na nobre arte do churrasco, eles quebraram o recorde de maior churrasco do mundo. Há quem diga que os mexicanos tentem bater o recorde, mas os uruguaios mostraram a verdadeira face do bom churrasco do Sul. Churrasco a céu aberto, com churrasqueiras de metal e carnes no espeto e em peça, nada de picanha fatiada. Como alguns dados dessa maravilha, temos: 12 mil quilos de carne assada, 300 litros de álcool para acendimento das churrasqueiras e, impressionantes, 1250 churrasqueiros.
Teve gente, claro, que não soube aproveitar a festa e, para variar, tentou atrapalhar ou, nesse caso, aparecer. Uma ativista – leia-se aproveitadora – de nome Cláudia estava empunhando uma placa com os seguintes dizeres: “Eu, Cláudia, não festejo este recorde”.
Nota do blog: Tudo bem, Cláudia, ninguém está nem aí para você. Quer comer alface, faça bom proveito. Aconselho até a colocar umas fatias de rabanete, cenoura, pepino, tomate, sabe, para dar uma cor à salada. Ah, não se esqueça do tempero: sal, azeite e vinagre a gosto.
Para concluir a homenagem aos deuses do churrasco, espero pacientemente que o Brasil e sua vasta cultura churrasqueira possam tentar, mesmo que por uma vez, quebrar o recorde de nossos irmãos uruguaios. Faço apenas uma ressalva: que eu seja convocado como um dos churrasqueiros ou caso não haja o convite, que eu seja pelo menos convidado a saborear as carnes de um novo recorde.
Escrito por Marcos Thadeu às 10h47
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Quando o Palestra Itália se vestiu de preto
Sensação estranha - para mim, pelo menos - entrar no Palestra Itália trajando uma blusa preta (sei que a situação permitia). Posso dizer, no entanto, que a sensação passou ao adentrar o gramado que, curiosamente, estava coberto por uma borracha preta – e branca também (um dos poucos motivos de indignação com o espetáculo que se mostraria fascinantemente exótico e intensamente interessante).
Sensação que passou, muito, por ver que, mesmo com um bando de roqueiros gritadores ensandecidos, havia a “baliza”, sim, o gol onde o Zapata perdeu o pênalti estava lá, intacto. O abraço à trave foi uma das sensações mais verdes daquele show escuro.
Parecia que tudo conspirava à escuridão. As roupas, o entusiasmo fúnebre dos presentes, a noite o céu inteiramente limpos, o palco, o primeiro show do Black Label Society e a pinga durante a pequena estada antes da entrada. Sim, a pinga também se mostrava à beira da escuridão. De sabor suave, leve, porém encorpada que vez ou outra nos tirava a visão, a Nega Fulô deu o tom de escuridão à bebedeira. O lugar, no entanto, um dos poucos a não nos remeter à escuridão por completo: o bar do Alemão.
No estádio, a massa negra que se avolumava tornava o gramado um imenso borrão de tinta negra. A massa, de um lado para outro, tornava o gramado um verdadeiro furacão preto que, vez ou outra, se acalmava, mas que, no entanto, ficou quase que na totalidade perto do maior grau na escala richter.
Na hora do maior espetáculo, o furacão toma proporções inimagináveis. A devastação sonora rompe barreiras e a concentração de gritos ensurdece aqueles que, do lado de fora, não puderam contemplar um dos maiores do mundo.
Sim, Ozzy é o maior entre os maiores. É a lenda viva (não se sabe como, é bem verdade) que, como gosta de apregoar, vaga como um espírito de quem, verdadeiramente, é o último dos ditos grandes. Como músico-solo, podemos afirmar ser o último showman da face da terra.
Hoje, dois dias após a lenda se apresentar num dos grandes palcos da minha vida, posso afirmar, sem nenhum impedimento: entrar no gramado do Palestra Itália de preto foi estranho, mas a estranheza acabou com os primeiros goles de cerveja dentro do estádio e a certeza: caralho, é o Ozzy!
E, como que num coro que devasta e emociona mesmo os menos sentimentalistas, repetimos em alto e bom som: ‘Olé, olé, olé “Ozze”, “Ozze”’.
Escrito por Marcos Thadeu às 17h17
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