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À desgraça: vá para o inferno

Caia na real, você não é mais o mesmo. Não tem mais o mesmo pique de antes. Hoje você consegue facilmente trocar uma partida de futebol com os amigos por mais duas ou três horas de sono depois que você chegou às sete da manhã em casa. E com a constatação de que você não é mais o mesmo, vem sempre a desgraça. Desgraça, essa, que sempre dá as caras por sintomas puramente estranhos.

 

Sintomas de que você, realmente, está ficando velho. Antigamente, pelos seus 16 a 20 anos, você fazia de tudo e pouco tempo. Saía, bebia, ficava acordado até as tantas, dormia duas horas e “estava novo”. Hoje, você ainda bebe, você ainda fica acordado até as tantas, mas nem sempre dorme duas horas e acorda “zerado”. Às vezes, a bem da verdade, você nem acorda. Desliga o despertador (fato, claro, que você não lembra de ter feito), vira para o lado e dorme. Quando acorda, pensando ser nove da manhã, são, não verdade, quatro da tarde.

 

Têm dias, evidentemente, que você até consegue acordar cedo. Estragado da noite anterior, os reflexos são perceptíveis de longe. Dificuldade no andar, olhar longínquo, palavras desconexas e, o maior reflexo de todos: o de não ter reflexo algum. É assim que os outros te vêem. Pasmos, no entanto, apenas limitam-se a perguntar: você está bêbado? Você, é óbvio, tenta dizer que não, mas não adianta. Seus amigos também são tão loucos quanto você e claro que eles sabem a verdade.

 

Verdade essa que não é exclusividade sua (ainda bem!). Nem sempre você é o que trocaria uma partida de futebol por umas duas horas a mais de sono. Mas é claro que, diante da repetição dos fatos, o estigma acaba tornando-o popular. Popular a ponto das pessoas perguntarem: quantos dias da semana passada você passou sem beber? E, envergonhado, até a linha dois, você responde: não me lembro, mas acho que apenas na terça.

 

Mas, pior do que os julgamentos equivocados por parte de seus amigos, são as frases que, num puro ato súbito, você diz sem pensar e que dão a exata dimensão de como você está ficando velho. Na reunião após a desastrosa partida de futebol, que devido às adversas condições, você atua por ridículos três minutos, um de seus amigos diz: quando você subiu a escada, a primeira coisa que você disse foi: ai meu fígado!

 

Caia na real, você não é mais o mesmo. À desgraça aos montes eu peço: vá para o inferno e me veja mais uma dose de Red Label com apenas duas pedras de gelo, por favor.



Escrito por Marcos Thadeu às 15h31
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