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Metaforizar o uísque antes de bebê-lo
Quando chegou ao bar, numa noite fria de inverno, decidiu: -Hoje só tomarei uísque. -Uísque? -Sim. -Que tal um caldo de feijão? -Feijão? -Eu lá tenho cara de quem toma caldo de feijão? -É para o frio. -Frio? Quem disse que eu estou com frio? Garçom, me vê daquele escocês legítimo.
O primeiro, para provar que era macho, à moda cowboy. O segundo, para provar ainda que era macho, também sem gelo. Nisso chega um amigo. Começam a conversar sobre política. Eram, evidentemente, de posições ideológicas. Num dado momento, chama o garçom ao pé do ouvido. -“Amigo”, me vê mais uma dose? -Sim, igual? -Não, dessa vez coloca uma pedra de gelo? E voltaram. O uísque chega e a conversa não pára. De repente, como num solavanco, Jairo, o dono do uísque começa a filosofar. -Você não acha que o uísque se parece com a vida? -Como assim? -É. O primeiro foi puro como na infância. O segundo foi puro mas foi forte, como na adolescência, o terceiro já foi meio sem gosto e sem força, como quando envelhecemos. Sem entender nada, deixou prosseguir. -Você não acha? -Claro.
Ao final chamou o garçom. -“Amigo”, me vê mais um? -Igual? -Não, dessa vez misture com guaraná. O amigo da mesa, ao ver aquela cena – e lembrar da cena anterior –, espera atentamente a filosofada sobre uísque com guaraná; filosofada esta que não veio. Despedem-se. No dia seguinte encontra Jairo no trabalho. -Pôxa! Faltou a metáfora sobre uísque com guaraná. -Metáfora? Que metáfora? -Que você fez ontem sobre uísque e a vida. -Ah sim. -Então, por que não fez a do uísque com guaraná? -Porque eu ainda não consegui terminar de bebê-lo. Nesse momento Jairo tira de dentro da bolsa uma garrafa com uísque e guaraná e bebe. E o amigo descobre: tinha virado alcoólatra o infeliz.
Escrito por Marcos Thadeu às 15h30
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E o mundo caiu
Dão-se sinais que tudo estava começando. Dão-se muitos sinais, mas Djair, um mecânico aplicado do centro de uma importante capital do País não nota, nenhum. E toca a vida com sempre fez. Da mesma maneira. Sem que nada estivesse se passando por ali.
Os vizinhos tentam avisar, mas nada. Os parentes, preocupados, também tentam, sem nenhum sucesso. E Djair continua a levar a vida. Sem mudar.
Num dia frio de inverno percebe o primeiro sinal. Um fio branco. Mas estava novo demais para ter um fio branco na cabeça, que ainda funcionava muito bem. Numa manhã de chuva torrencial, percebe outro sinal: dor nas costas. Achou, claro, que fosse por causa do trabalho, afinal, arrumar motores todo o dia exigia esforço físico intenso das costas.
E continuou na mesma rotina. Mariângela, mulher prendada que se casara com Djair quando tinha apenas 17 anos, alertava para o inevitável. Djair, que era calmo e atencioso com os clientes, em casa fazia a pose do ‘homem-durão’. Não aceitava a opinião de estranhos, quanto mais da própria mulher.
E o tempo foi passando e os sinais cada vez mais fortes. Mais dores nas costas, mais fios brancos. As dores, curava com repouso (afinal, a oficina era sua, podia folgar) e os cabelos, para mantê-los pretos, usava tinta. Mas um dia o mundo caiu.
No voltar para casa, sedento de afeto, manda as crianças para a casa do vizinho. Toma a mulher amada entre os braços e carrega-a para seu lugar preferido da casa, sua cama. Entre beijos e preliminares, o caos: nada de ‘acontecer’. Nada de ‘levantar’. Precisou da famosa pílula azul. Com ela fez tudo direito, mas teve que ir ao médico. Este pediu uma bateria de exames, até o mais cruel, toque retal. Daí, percebeu que maior sinal não havia:
Estava começando a ficar velho, o Djair.
No outro dia, encontrou Demóstenes, um velho amigo. Um dos amigos que o alertaram. E conversaram. E percebeu. O mundo não era mais o mesmo. A vida não era mais a mesma. A partir de agora, precisava todos os dias das pílulas, tanto para dor nas costas como para saciar as necessidades dele e de sua adorada esposa. E, também, a cada um ano precisa se encontrar com o médico e seu “grande” dedo do meio.
Escrito por Marcos Thadeu às 11h47
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Terror, ódio, ira, raiva
21h45min. Ele se ajeita no sofá à frente da TV. A transmissão já está no ar. Cervejas e salgadinhos para alimentar. Os olhos grudados não desviam um minuto sequer. O time entra em campo. Parecem tensos, dentro e fora das quatro linhas. E começa.
Um lance perdido, uma bola roubada, uma falta marcada. As primeiras reclamações. Ele se ajeita, bebe mais cerveja, come mais salgadinho. Suspira e respira fundo. O time ataca, joga bem, mas nada. Nada de gol.
Lá se vai o jogo. Faltas, lances, impedimentos. O estádio está lotado e ele lá na sua casa, com suas cervejas e seus salgadinhos. O primeiro tempo acaba. Vantagem para o adversário. Ele reclama. Reclama de um pênalti. Sem compaixão amassa latinhas violentamente. Arregaça sacos de salgadinho com violência.
Os times voltam a campo. Sem alterações. E nada. O tempo passa. O jogo prossegue. O time empata. Joga melhor. Está em vantagem. Com um jogador a mais. E continua. Mas nada. Nenhum lance de perigo. Numa bobeada, o caos:
Um pênalti mal-marcado. Uma revolta. Latinhas são atiradas pela janela. Salgadinhos são pisoteados no chão. O gol do adversário elimina o time. A confusão está armada. O jogo prossegue mais o placar não se altera. Ao final, chora, por mais um campeonato perdido. E, apesar da decepção, como num passe de mágica, deita-se na cama, bêbado, e em menos de cinco minutos ronca profundamente. No dia seguinte, não lembra de nada.
Escrito por Marcos Thadeu às 11h07
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