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ilustre (des)conhecido


A vodca do esquecimento

Toda e qualquer pessoa que bebe – alcoólatra ou não – parece ter para si aquela bebida na qual o corpo e a mente rejeitam. O caso torna-se mais emblemático quando a pessoa gosta dessa bebida em questão, a que não cai bem. Talvez algumas pessoas ainda não tiveram a consciência de fazer esse tipo de exercício, mas acho válido e importante. No meu caso, feliz ou infelizmente, já descobri: a vodca.

Mesmo numa descontraída reunião com os amigos ou na mais pura e digna vontade de se tomar um porre, a vodca, para mim, era envolta em mistério. Eu disse era! A repetição dos copos, dos goles, fez com que avaliasse e chegasse à conclusão de que a vodca não combina comigo. Não sei o destilado russo – na origem, é claro – ativa ou desativa meus neurônios a ponto do primeiro gole a colocar a cabeça no travesseiro algumas partes serem simplesmente “deletadas”.

No dia seguinte, tento puxar pela memória “o todo”, mas não consigo. Às vezes, não corriqueiramente, acordo na minha cama (ufa!) e me vejo perguntando o clássico: “como é que eu vim parar aqui?”. É impressionante como a vodca pura ou misturada com refrigerante ou suco de qualquer coisa, no meu caso, tem esse papel impressionante de “Ctrl + Alt + Del”, que reinicia a minha memória.

Fato é que, descoberta que a vodca não combina comigo, você deve se perguntar: então por que continua bebendo? Penso tudo em nome da ciência. Ninguém descobre algo em uma única vez, certo? É preciso estudo, estatísticas, pesquisas e, sobretudo, prática. Por isso que, depois disso tudo, agora tenho a certeza de algo: o dia que precisar esquecer alguma coisa, a vodca será a minha pedida certa.



Escrito por Marcos Thadeu às 12h30
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A (não tão nova) ditadura da beleza!

Não é de hoje que as mulheres teimam em brigar com a balança. Também não é de hoje que elas passam horas e horas em frente ao espelho, no salão, nas clínicas de estética, nos SPAs para ficarem ainda mais lindas. Seguindo direta ou indiretamente um padrão imposto pela sociedade e/ou o meio em que vivem, elas se esforçam cada vez mais para se satisfazerem com o próprio corpo ou como costumam dizer: “estar em paz consigo mesma”.

 

Atualmente, ao que parece ser exclusivamente no Brasil, a ditadura da magreza virou página no livro de história (abordo a magreza esquelética das modelos de passarela). Impera hoje a “ditadura da sarada”, ou como quero nomear a BGxCGxPS – Bunda Grande, Coxa Grossa e Peito de Silicone. Resumindo, a “ditadura Panicat”. Um modelo rigoroso que exige dedicação por parte da mulher e que na maioria dos casos acaba tirando a essência da única e individual beleza de cada uma.

 

Já reparou que todas as animadoras de auditório e a maior parte das participantes de reality shows, as mulheres em maior evidência na mídia, são iguais? Com seus atributos elas atraem a atenção dos homens, geralmente seguido de um adjetivo nada romântico: “cavala” (peço desculpas às mulheres, mas é isso mesmo). Um pouco mais sutil, vem o termo “avião” e o clássico “é muita areia pro meu caminhãozinho”. E, no último caso, não adianta falar que faz várias viagens porque isso levaria mais de um milhão de quilômetros.

 

Imagina você, jovem, magro e que se diz disposto tentar acompanhar um ritmo de treino de uma mulher BGxCGxPS? Não raro os namorados dessas mulheres dispõem de todo esse preparo, talvez até tenham se conhecido na academia ou em uma loja de suplementos vitamínicos. Antes que você pense, é claro que não rejeitaria. Elas têm a sua beleza. Mas, sei lá, acho que se eu entrelaçasse minhas pernas com a da Juju, do Pânico, por exemplo, meu fêmur quebraria, certeza. A coxa dela deve ser mais forte que uma morsa.

  

Infelizmente, as revistas masculinas embarcam nessa nova ordem mundial na ditadura da beleza. Se você, nobre leitor, analisar as últimas capas duas maiores do País, estas só estampam as mulheres BGxCGxPS. Salvo algumas exceções, como as Playboys da Cléo Pires e da Letícia Birkheheur e a última da Sexy, de uma ex-BBB que eu não lembro o nome. Por isso, peço às revistas que repensem seus ensaios: o bom do Brasil é que pra todos os gostos e as páginas devem ter espaço para todas: da sarada à bonequinha de porcelana, da que tem o corpo naturalmente brasileiro, até as mais cheinhas.

 

Não questiono se está certo ou não ser magrinha, gordinha ou BGxCGxPS. Cada mulher sabe muito bem como ser bonita, elegante, atraente e, além disso, sabe muito bem buscar a felicidade e a paz interior para viverem bem consigo. Mas, hoje, é fato que a nova ditadura da beleza quer a mulher mais voluptuosa. Se pararmos para pensar, tem até a ver se fizermos uma analogia com os movimentos culturais. Lembre-se que um novo movimento, em sua essência, tende a combater tudo o que é tradicional ou que era praxe no movimento anterior.

 

Algo como, para exemplificar, como o punk de três acordes e do “faça você mesmo” surgiu em contrapartida ao rock elaborado e psicodélico. Podemos dizer que a “ditadura Panicat” é movimento barroco da forma física, do exagero, da busca pela perfeição, e que se opõe a tudo do movimento de antes, ou seja, da magreza esquelética das modelos de passarela. Parece meio viajante, meio sem pé nem cabeça, mas eu acho que é mais ou menos isso. Ah, uma última: nem pense em usar a palavra “barroco” num xaveco. Dica de amigo.       



Escrito por Marcos Thadeu às 01h13
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A difícil arte de se dar um pé na bunda*

Tomar uma decisão importante requer traquejo, estudo, paciência, perspicácia e demais adjetivos que não ficarei elucidando, pois poderia levar uma vida inteira. E também, se ficar colocando todas essas qualidades, demoraria tanto que não tomaria a tal da decisão. Fato é que dar um pé na bunda é das coisas mais difíceis do mundo. Quem já passou por essa experiência, sabe bem do que estou falando. E, infelizmente, ainda não existe um manual sobre isso. Em nenhuma das situações.

 

Antes de mais nada, não vou afunilar a esse ou aquele assunto. Falo de todos os pés na bunda em geral, sem exceções. Da namorada que você não ama mais, do emprego que você já não suporta, do torresmo por causa do colesterol e até daquela sua camisa preferida que está no guarda-roupa tão desbotada e que, mesmo assim, você faz questão de vesti-la no aniversário de 80 anos da sua avó. Não importa a situação, chegar à via de fato é algo, para mim, como um jogo de xadrez: como o bispo e perco o cavalo ou jogo o peão pra frente e perco apenas uma torre?

 

Não importa. Meu Deus, não importa. Qualquer um dos movimentos terá uma conseqüência a ser levantada antes da tal ação. Então, o que você precisa fazer é ver qual destes atos te dará a menor das conseqüências a curto, médio e longos prazos. Parece utopia, loucura ou sabe-se-lá-o-que, mas pensar em longo prazo é dever de todos. Não falo de um longo prazo igual à idade da sua avó, mas um pouquinho menos longe.

 

Em geral, mas não via de regra, o pé na bunda vem com uma sensação de vazio e acompanhado de uma assustadora angústia, pois sempre aquela voz dentro da cabeça virá perguntando o tenebroso “será que eu fiz a coisa certa?”. É nessa fase que a verdade face do pé na bunda derruba os mais fracos. Mas estes não têm, a princípio, culpa, pois não é fácil digerir e lidar com uma mudança que, por vezes, é brusca.

 

Se a decisão for certa, pensada e, por fim, acertada, pode apostar que o pé na bunda terá ao final uma sensação de alívio e de felicidade. Não existe tempo determinado. Dure o tempo que for. Mas a felicidade depois impera. Lembra quando o Millor Fernandês dizia: “quando o marido resolve (se separar da mulher e) casar com a amante ele prova que o adultério não valeu a pena”. É mais ou menos isso. Ou não!

 

*alcunhei como “pé na bunda”, mas você pode escolher o nome que tiver vontade: chutar o balde, tirar o pai da forca, tocar um foda-se, mandar tudo às favas etc. A escolha do freguês.



Escrito por Marcos Thadeu às 23h07
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(quase) o mesmo show; duas diferentes visões

Quando foram anunciados os shows de Paul McCartney no Brasil, decidi – como grande parte dos fãs incondicionais do ex-Beatle – que na minha cidade, São Paulo, aqui onde moro, trabalho e me divirto, eu iria em todas as apresentações. Não importava o número que fossem. Fosse uma, estaria lá. Fossem dez também. Quis o destino que fossem duas, o dobro de emoção, para um sonho que há cinco, dez anos acreditava seria impossível de se concretizar. Mas aconteceu. Sim, o inacreditável e o intangível uniram as forças e nos ofereceram “o melhor dos melhores”.

 

Engraçado como nossas intenções e a nossa adoração não são entendidas. Meu pai, por exemplo, achou estranho assistir a mesma apresentação duas vezes, e em tão pouco tempo. A contrapartida durante uma conversa rotineira de fim de tarde, porém, veio como em um solavanco, disse: “pai, são 50 anos de carreira x seis horas de show. É para aproveitar ao máximo”.

 

O que, no meu caso, não contava desde o anúncio da vinda de Macca ao Brasil era a ideia de levá-lo à segunda apresentação. Mais uma vez, aqui, o inacreditável e a coincidência tomaram as rédeas da situação, ao datar o show para novembro, seis dias antes do aniversário daquele que se não me apresentou diretamente os quatro rapazes de Liverpool, pelo seu gosto musical de blues, jazz e até música clássica, tornou esse caminho natural para mim, e bem mais fácil.

 

Ele merecia esse presente, essa conquista. Ele merecia dividir o sonho comigo, com quem é sangue do sangue. Foi então que, comprados os ingressos para segunda-feira, 22, minhas duas visões do (quase) mesmo show começaram a tomar forma. Se no primeiro iria de pista comum, acompanhado dos amigos, fãs ensandecidos e de toda a aura de “fazer parte da história de fato e de direito” que cerca este setor do estádio, no segundo desfrutaria na arquibancada.

 

Inédita em termos de shows, a arquibancada na segunda apresentação, para mim, era um grande mistério, pois sempre refutei em passar um show de um grande ídolo longe do palco: “como estar tão longe da galera, da multidão que pula, grita e chora e faz o espetáculo também valer a pena?”. Não tendo mais volta, foi então que comecei a analisar como seria passar as (maravilhosas) três horas sentado, observando a todos de um ângulo favorável, apesar de ser um ângulo longínquo.

 

 Ao lado, em quase todo tempo, meu pai fitava o palco em busca daquele (pequenino) Paul que na adolescência dele embalou o som do toca-fita do carro ou do rádio na sala de estar de casa. Quando os primeiros acordes de “The Long and Winding Road” começou ao piano, virei para o meu pai e disse: “ontem, foi a primeira música que chorei”. Antes, estava em estado de choque. A sua resposta, porém, fez valer o investimento no presente antecipado de aniversário: “meu Deus, eu tinha 15 anos quando ouvi essa música pela primeira vez”.  

 

Não há comparação, evidentemente, da arquibancada com outros espetáculos, como teatro, cinema ou eventos culturais do mesmo gênero. Bem longe disso. Assistir ao show da arquibancada não foi bom, nem ruim. Foi apenas diferente, e compensado por ver mais uma vez o espetáculo que vimos um dia antes, na tradicional pista, naquela que nos abraça, nos amassa e nos leva para cima quando temos que ir para cima.

 

Em uma avaliação, se me permitem meus nobres leitores, a arquibancada só deve ser considerada mediante o acompanhante: pai ou mãe (às vezes o berço do gosto musical), a amada (que às vezes quer mais conforto ou proteção), o amigo de longa data (que por ventura não pode ir de pista por esse ou aquele motivo). Sozinho, apenas se acompanhado de deliciosas cervejas belgas e um bom hambúrguer de picanha.

 

E se no começo desse texto citei uma frase minha para justificar assistir duas vezes o (quase) mesmo show, termino esse emocionante relato com uma frase de meu pai após o show: “eu demorei 50 anos da minha vida para assistir um Beatle; vocês (o meu irmão e eu) terão os próximos 50 para contar a todo mundo que estavam lá quando Paul McCartney tocou no Brasil”.



Escrito por Marcos Thadeu às 00h27
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Band e o debate mais chato da história

Não foi culpa da emissora, é bem verdade, mas o que se viu na noite de ontem, 05, foi uma das coisas mais chatas da televisão brasileira nos últimos anos em se tratando de debates. As presenças de Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), inacreditavelmente, foram ofuscadas pelo velhinho simpático e desenvolto que parece ter sido chamado de última hora. Estava em casa se preparando para o chá da noite com bolachas quando o telefone toca. “Plínio, é da Band. Você consegue chegar à emissora em meia hora de terno e gravata?”.

 

E, por incrível que possa parecer, ele acabou aceitou o convite da emissora, surpreendendo todos os telespectadores, como verdadeiramente afirmou em seu primeiro discurso logo no começo da transmissão. Ninguém esperava vê-lo ao vivo, muito menos ninguém imaginava o que exatamente ele faria lá naquela bancada. E, outra vez, ao final do debate, fomos surpreendidos (nesse caso, positivamente). Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) foi o único que levou o debate com ‘D’ maiúsculo. Questionou, satirizou, polemizou, brincou e, acima de tudo, debateu, mesmo em raríssimas participações.

 

Serra, o hipocondríaco, tentava entroncamento com Dilma, mas era público e notório que os dois tinham 150 pedras não mão e enormes telhados de vidro. Por isso o que se viu foi até uma cordialidade entre ambos, talvez um receio: Serra deveria ter dado uma aula de debate, por ser o mais experiente, mas não o fez em momento algum temendo “como” Dilma se apresentaria. Já a petista, coitada, parecia uma candidata do programa “Ídolos” que não tem nenhum talento e logo que abre a boca é reprovada pelos jurados. Ao final do primeiro bloco, de tão nervosa, não poderia nem segurar uma xícara de café que provavelmente derrubaria no chão. Marina Silva, a centrada, é que nem arroz em prato chique: “só acompanha”. Tem uma história de vida linda, defende interesses ambientes e só!

 

Diante de todas essas evidências, esse debate mamão-com-açúcar – ou como bem afirmou Plínio: chapa-branca – foi chato e monótono, exatamente como aquelas corridas de carros sem disputa e nenhuma emoção, aquelas que o torcedor sai do autódromo reclamando e chateado: “pôxa vida, não teve nenhum acidente”. Exatamente como o debate de ontem: sem nenhuma (grande) acusação, sem nenhum enfrentamento e sem nenhum direito de resposta. Bom mesmo foi no começo da transmissão, quando (re)lembramos em rápidas e saudosas imagens embates históricos e antológicos de Montoro, Jânio, Brizola, Maluf, Covas, Lula e Collor. 

 

Por essas e outras que desde as primeiras palavras estava claro diante das TVs brasileiras – quer dizer, das pouquíssimas TVs brasileiras, pois a audiência foi extremamente baixa: algo em torno de 6% – que o embate político não seria a tônica. Provavelmente resguardado o fato de ser apenas o primeiro debate, que a campanha está apenas começando ou que ninguém tinha mesmo o que falar. Não importa. Foram duas horas e meia praticamente jogadas no lixo, e que pouco – ou quase nada – acrescentaram ao (indeciso) eleitor do Brasil.

 

Faltou sustância! A guerra do nós (fizemos) de Dilma contra o eu (fiz) de Serra torrou bastante a paciência. Tudo o que era perguntado era fundamental, essencial e importante. Projeto que era bom, nada. Nessas horas é que fazem falta outros candidatos, de partidos pequenos e minúsculos notadamente com veias políticas e ideológicas perto dos partidos da massa. Seria bom ver Eymael (PSDC), Ivan Pinheiro (PCB), Rui Pimenta (PCO), Zé Maria (PSTU), entre outros neste debate da Rede Bandeirantes. Se eles pouco acrescentariam às urnas, pelo menos incitariam ainda mais o debate com os “líderes nas pesquisas”.

 

Sem mencionar, claro, a presença do candidato “showman” de uma proposta só para o Brasil: Levy Fidélix (PRTB). Com será que ele se comportaria ontem, em meio a seu inimaginável Aerotrem, tendo em vista que recentemente foi lançado o edital para a construção do trem bala que ligará os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro? Será que tentaria, de todas as formas, ser considerado o pai da criança? Não, meus nobres leitores, antes que você pense o meu voto não é dele!



Escrito por Marcos Thadeu às 11h10
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Felipe Massa: banana ou integrante de uma equipe?

Não é de hoje que as equipes da Fórmula 1 cometem suas patacoadas, causando estranheza e revolta em seus milhares e milhões de fãs espalhados pelo mundo todo. Antes de mais nada, quero deixar claro que não sou – e posso dizer: nunca fui – habitué das corridas nos domingos pela manhã, mesmo à época do Ayrton Senna. Acompanho mais pelos jornais, rádio e internet, vendo, ouvindo ou lendo matérias sobre os desempenhos dos pilotos a mais de 300 por hora. Às vezes, é bem verdade, acompanho as corridas à tarde.

 

Minha considerável preguiça em acordar pela manhã aos domingos ou, ainda, em permanecer acordado para as provas de madrugada traduzem minha falta de conhecimento. Porém, mesmo assim, não dá para deixar de comentar o que aconteceu na última corrida, na Alemanha, quando o piloto brasileiro (tinha que ser!) Felipe Massa abriu caminho, mesmo liderando a prova, para o companheiro de equipe e “muito do espertinho”, o espanhol Fernando Alonso.

 

O que causa indignação é essa alteração no “resultado normal” da prova. Diziam que mesmo estando mais rápido – o que de fato é perfeitamente compreensível em determinados momentos da corrida, tendo em vista, por exemplo, que o líder da prova é o primeiro a pegar o tráfego de retardatários – Alonso poderia não conseguir ultrapassar Massa, pois faltavam apenas 15 voltas para o término da prova. Além disso, a velha máxima do Galvão Bueno aqui encaixa: “chegar é uma coisa, amigo, ultrapassar é outra”.

 

O que aconteceu no domingo reacendeu as velhas polêmicas e artimanhas maledicentes da F-1 e, por conta disso, muitos daqueles que acompanham passaram a questionar se a modalidade corrida de carro é ou não esporte de fato e de direito. Lembremos que o esporte é caracterizado pela disputa em que o melhor (consagrado ou não, estatisticamente ou não) sempre ganha. O Massa não é melhor que o Alonso, que não é tão melhor assim que o Massa. No entanto o brasileiro estava melhor no fim de semana. Isso é fato!

 

O circo da Fórmula 1, como qualquer esporte, diga-se de passagem, sempre produziu a cântaros polêmicas e casos como o Massa x Alonso. Quem não se lembra de Senna x Proust por dois anos seguidos, nas últimas corridas em disputa por título, ou ainda Barrichello x Schumacher, GP da Áustria, e, também, Nelsinho Piquet x Fernando Alonso? O que, para mim, nunca ficou claro é a definição do esporte Fórmula 1: ele é individual ou é coletivo, por equipe? Essa pergunta, respondida por quem entende, explica de maneira inquestionável o ocorrido.

 

Se considerarmos a Fórmula 1 como esporte individual, então o Felipe Massa se tornou mais um (brasileiro) banana na galeria dos grandes “funcionários do mês” que fazem tudo pelo bem da equipe, mesmo que para isso sejam impedidos de ganhar e levar adiante o ideal do esporte. Além disso, pior, acabam perdendo o respeito que tem dentro do circuito (importante: ele sempre terá o respeito dentro da equipe, acompanhado dos irônicos e sugestivos tapinhas nas costas).

 

Considerado, então, como um esporte coletivo, em que a vitória da equipe vem em primeiro lugar, então não podemos achincalhar tanto assim o Massa. Não nos esqueçamos que ao começar a prova os dois pilotos ferraristas estavam separados por muito na classificação geral do campeonato. Nada mais natural, portanto, que o piloto com mais chances de ganhar o título pule à liderança. É feio, é irritante, é revoltante?

 

É, eu sei! O grande problema é a falta de comunicação clara entre a estratégia da equipe com os pilotos e a imprensa, a FIA e os torcedores. Fôssemos logo alertados de que o Massa deixaria o Alonso passar para que este se aproximasse do líder Lewis Hamilton na classificação geral, diante, claro, da permissão das regras, acho que ninguém acharia o Massa um grande banana.

 

Seria algo, mal comparado, como no futebol quando o batedor oficial de pênaltis de uma equipe deixa outro jogador bater a penalidade só para que este se tornasse o artilheiro máximo de determinada competição. Isso acontece, às vezes, mesmo com o jogo estando empatado, o que torna a situação, caso seja mal realizada, ou seja, o cara perde pênalti, tão ou mais revoltante do que aconteceu no domingo.



Escrito por Marcos Thadeu às 12h07
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Manual do bom suicida

 

Quando Chico Buarque escreveu na canção Construção o seguinte verso Morreu na Contramão Atrapalhando o Tráfego ele sabia o que estava falando. Dessas coisas que acontecem na vida, vez ou outra, e que são verdadeiras elucidações. Sim, na última sexta-feira, precisamente no dia 28 de maio, ao passar por uma estação de metrô vi mais uma pessoa que resolveu tirar a vida.

 

O caso é que esta pessoa, além de querer passar dessa para uma melhor, resolve atrapalhar a vida de muita gente. Disseram-me que por causa deste “incidente” o metrô ficou parado por cerca de 40 minutos. Já imaginou o que são 40 minutos no caótico trânsito de São Paulo? Pois bem, ao contar o relato em casa, eis que meu pai só fala; ‘está vendo? Você ainda acha que aquelas portas não serão úteis? Elas vão impedir esse tipo de acontecimento ou, melhor, que aconteçam de fato acidentes”.

 

OK. Ponto pro velho. Mas, pensando bem, não sei se seria o caso apenas destas tais portas nas plataformas. Vejo o caso mais pelo lado sociológico da coisa, de que, na verdade, deveríamos educar os suicidas. Isso mesmo, a palavra é EDUCAR. Educar no sentido de fazer com que ele “faça o serviço” e não resolva ferrar com todos a sua volta, que pacientemente e pacificamente se dirigem ao trabalho, à escola ou ao lazer.

 

Porque suicida é aquela pessoa que não basta apenas tirar a vida tem que, para isso, entrar para a história. Pulam na frente do metrô, do alto de um prédio famoso ou torres de transmissão ou de celular. Por que não podem morrer quietinhos, com veneno ou tiro na cara, em casa, sem atrapalhar o tráfego? O que fiz para você me atrapalhar tanto? De tanto xingamento que essa pessoa ouve, além de lamentos com “meu Deus, que horror”, deve ter ido direto para o inferno e sem escala.

 

Por isso esse humilde blog propõe que se crie um Manual do Bom Suicida. Sim, regras e condutas, com direitos e deveres, que nortearão a execução do fim trágico. Provavelmente as pessoas devem achar que sou um maluco – tanto quando os suicidas –, mas se isso servir para que suas vidas de não suicidas ocorram naturalmente, duvido que alguém pensará que não tenho um pingo de juízo. Posso até ganhar dinheiro com isso, tipo um best-seller da auto-ajuda suicida. Porém, acredito mais em serviço de utilidade pública.

 

Para não me alongar mais neste texto (inimaginável), este pequeno Manual do Bom Suicida terá apenas dois únicos e derradeiros tópicos: O Que Não Fazer e O Que Fazer.

 

O que não Fazer: simples, não tente manifestar sua indignação com o mundo nos transportes públicos, grandes avenidas e prédios ou pontos que tenham o transporte público, principalmente o metrô, nos arredores, pois é bem possível que as autoridades sejam obrigadas a cortar a energia, fechar a avenida ou parar a movimentação dos transportes para que você, suicida metido a engraçadinho, possa fazer o seu serviço. Importante: fazer o serviço em empresas está fora de cogitação, porque mesmo que os outros empregados sejam dispensados, no dia seguinte terão trabalho em dobro.

 

O que Fazer: você lá achando que o mundo é injusto resolve que o melhor é ir embora. Primeiramente tente fazer isso em casa, quieto e sem atrapalhar ninguém. Armas, remédios e venenos são propícios à ocasião. Caso queira na rua, busque lugares tranquilos e com pouco movimento, mas tenha em mente que isso poderá fazer com que o “resgate do que sobrou” demore. Ainda não achou interessante e quer pular de uma ponte? Sugiro que procures uma que abaixo tenha canteiro central – e que não erres o alvo. Se estiveres no canto central provavelmente interditarão apenas uma das faixas da avenida. O trânsito ficará mais lento, mas fluirá de maneira ordenada.



Escrito por Marcos Thadeu às 13h35
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Almoço de negócios

Sem sombra de dúvidas, uma das grandes ciladas da vida profissional são os almoços de negócios. Aqui generalizo, mas podemos falar em café da manhã, jantar, happy hour, brunch. Enfim, não importa a denominação, o importante é destacar que tais acontecimentos podem, de fato, determinar o sucesso e/ou o fracasso da vida profissional. Verdade. Acredite você ou não. Um movimento em falso, uma palavra mal colocada e/ou uma postura errada causa desconforto e denotações negativas de ambas as partes.

 

Quem teve a experiência de passar ileso por tal provação não pode – jamais – se dar por vencido. Ou, na gíria, dizer: eu sou foda! Tudo, absolutamente tudo, gira em uma batalha diária, na qual o profissional deve-se policiar a cada nova incursão ao mundo dos eventos empresariais. Diante da prerrogativa imposta pela dita lei da conduta profissional – que nos impede, por exemplo, de saborear o prato de maneira humana e glutônica, aquela que merece ser acompanhada de uma boa cerveja alemã ou belga – este blog prepara um pequeno manual para ajudar nesta difícil missão:

 

1 – Não exagere na quantidade de comida no prato

 

Está certo que você pode ser daqueles que gosta da chamada montanha de arroz e feijão, com bife, batata frita, bisteca de porco e salada tudo no mesmo prato, mas, por favor, controle-se. Aqui vale a (constante) lei da repetição – não importa o número de vezes – e da etiqueta francesa: comece primeiro pela salada, passe à entrada – talvez uma quiche de qualquer coisa –, depois ao prato principal, à sobremesa e ao café.

 

PS 1: nunca, em hipótese alguma, recuse um café. Se for expresso, mais ainda. Executivos, diretores, gerentes sabe-se lá por que adoram um bom expresso. O fato do cafezinho após o almoço ajuda na digestão e, mais importante, na aceitação, pois deixa claro ao acompanhante de que “você é um dos nossos”.

 

PS 2: atente-se ao local do encontro. Não exagere na quantidade de comida no prato quando estiver em qualquer restaurante por quilo, do mais chumbrega ao mais requintado. Causa grande desconforto – em você e no acompanhante – ver que o peso do seu prato chegou a R$ 28,60 enquanto que daquele que te observa chegou a R$ 12,95.

 

2 – Não coloque no prato comidas de difícil mastigação

 

A tragédia, nobre leitor, chega aqui no conselho que você deverá seguir como regra para toda a vida profissional: se privar de algumas delícias gastronômicas que podem estar à disposição no buffet ou no cardápio. Por exemplo: quarta-feira, dia da tradicional feijoada, você, todo esperançoso, pega o prato, coloca o arroz, o feijão, a linguiça, o paio, a costelinha, a carne seca. Mas falta alguma coisa não é mesmo? Claro, é o torresmo. Mas é aí que a etiqueta bate à mente.

 

Torresmo não se corta com a faca, está entendido? Por isso, seja do tamanho que for, deverá ser colocado inteiro na boca. Imagine você no meio de uma discussão sobre um contrato, mastigando o torresmo como se fora um chiclete. Ainda mais quando, para despedaçá-lo, você dá aquela (forte) mordida e a crocância faz tanto barulho que interrompe uma momentânea pausa do acompanhante que estava buscando um melhor raciocínio às próximas etapas da discussão.

 

PS único: Essa dica vale também para leitão à pururuca e algumas iguarias da culinária japonesa, como rolinho primavera, harumakis de qualquer sabor, pois a “dificuldade” com os hachis pode determinar um estardalhaço durante o almoço, com o agravante de, em casos extremos, espalhar o molho shoyu por toda mesa, sujando a camisa de quem está junto.

 

3 – Não reclame do restaurante

 

Chega o convite para um almoço de negócios no escritório e você logo se anima: “Boa! Agora que eu tiro a barriga da miséria (sic!)”. “Não quero nem saber, vou comer até explodir”. “Reginaldo, você vai ver, vou comer até ter que empurrar com o dedo”. Três dias antes você come só salada para “guardar espaço” e arrebentar no almoço. Mas é claro que você se esqueceu de ler todo o convite.

 

No dia combinado a esperança se transforma em decepção. Você foi convidado a ir ao restaurante mais chique da cidade, aqueles que não vendem pratos, vendem conceitos culinários. Aqueles que você come, come e se mata por um cachorro-quente, um churrasco grego ou uma coxinha. Mas não, você tem que ir e saborear a iguaria como se estivesse adorando. Ao final, no entanto, tem que demonstrar total satisfação.

 

PS único: Este é um caso emblemático, que requer perícia, audácia e traquejo. Esqueça tudo aquilo que você sabe sobre refeições e/ou gastronomia. São nesses locais que o gosto é posto à prova. Por isso, mesmo que seu prato seja um “suculento” bife de ganso ao molho de ervas finas da beira do Rio Gandhi, na Índia, dê aquela garfada e, se possível, elogie a escolha do menu. 

 

4 – Não repita velhos hábitos

 

Isto se complementa perfeitamente ao primeiro item, quando abordamos que não se deve colocar uma quantidade exagerada de comida no prato. Aqui, no entanto, cabem outras incumbências e dicas para facilitar: como dissemos, não coloque no prato torresmo, pois não se corta com faca. Imagine você tentar cortá-lo e um pedaço sair voando mesa afora? Outra: se você não tem habilidade para comer frango com garfo e faca, nem se arrisque. Pode ser provável que, por instinto, você pegue uma coxa com a mão.

 

PS único: Palitar os dentes está totalmente fora de cogitação.

 

5 – Não aposte em combinações culinárias esquisitas

 

Gosto não se discute! A velha máxima, aqui, não pode ser levada à risca. Claro que nesses encontros é conveniente colocar iguarias nas quais há o costume de comer, mas o cuidado deve ser redobrado em alguns aspectos para que não haja a desmedida inquietação daquele que se senta junto à mesa. Não importa o que você coma em sua casa, não é de bom tom repetir em um almoço de negócios. Por isso, esqueça o queijo minas com calda de chocolate e alho poró que você aprendeu a comer com a sua avó.

 

PS único: Em um jantar de negócios na pizzaria, não pense ou cogite colocar ketchup na pizza. Isso causa estranheza não somente nesses tais encontros, mas em toda a nação italiana e seus descendentes. A cada vez que uma gota de ketchup cai em uma fatia de pizza um napolitano deixa de dizer “mamma mia” na Itália. Pense nisso!



Escrito por Marcos Thadeu às 16h29
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Segurança

Antes que você, nobre leitor, imagine e corra com a setinha do mouse até o ‘X’ no canto superior direito de seu monitor, isto não é um texto/conceito sobre a condição da segurança pública na cidade de São Paulo ou no Brasil, nem muito menos sobre segurança patrimonial ou qualquer outro tipo de segurança-alguma-coisa que vem à sua mente. Aqui neste espaço, trataremos do segurança, a profissão, e do relacionamento com o público.

 

É notório que em algum dado momento da vida qualquer ser humano sociavelmente ativo tenha tido problema ou situações embaraçosas com algum segurança. Caso não tenha acontecido, pode ter certeza de que ainda acontecerá. Essa pode ser uma das grandes verdades da vida (moderna). Os casos podem acontecer em qualquer lugar, em quaisquer situações, cotidianas ou não: seja no banco, no estádio de futebol, na balada, no shopping, enfim.

 

Explicado os pormenores deste texto, vamos à situação que caracteriza bem a tal da “situação embaraçosa”. Já reparou como, dado o lugar, tem segurança que muda o seu perfil de atuação? Claro que alguns diriam que faz parte do trabalho, que ele está lá para cumprir ordens e obrigações e demais blá, blá, blás! Mas, de fato, algo não encaixa. Precisamente ontem me dirigi ao shopping Bourbon, na zona Oeste, para pesquisar preços de óculos.

 

Como havia saído perto da Avenida Francisco Matarazzo, após a visita ao outro shopping da região, o West Plaza, resolvi caminhar em direção à entrada. Percebendo que não havia movimentação de carros, entrei pelo estacionamento. E lá estava o dito cujo. Terno e gravata até certo ponto alinhados, walkie-talk no coldre e um ar de superioridade que mais parecia de um sexagenário membro da Academia Brasileira de Letras.

 

Parece que até é ordem lá de cima, da direção, que o segurança tenha esse poder de observar aqueles que “representam” uma ameaça à benevolente convivência do local. É mister que assim caminha a humanidade elitizada, separando a imensa quantidade de joio dos nobres trigos. E digo, se esses trigos produzirem saborosas cervejas, que assim seja. Pois bem, ao pisar nos domínios do shopping senti-me analisado da cabeça aos pés.

 

Uma análise sociológica, meio algo como Exterminador do Futuro, que analisava se as roupas de determinadas pessoas eram compatíveis com seu tamanho. Não sei até que ponto o “grau de ameaça” na escala da segurança subiu, mas fato é que fui liberado. Aqui cabe dizer que liberado significa não ser interrompido no ato da entrada. E lá fui. Entre lojas e lojas, pensando neste texto, divagando sobre seguranças e seguranças.

 

Depois de um bom tempo neste shopping-que-não-coloca-preço-na-vitrine, resolvi sair, desta vez pela escada, como qualquer ser humano decente. Mesmo na naturalidade, sofri com a intransigência dos homens de terno e gravata pretos e camisa branca: do outro lado da rua, uma bela mulher esperava ansiosamente para atravessar. Eis que o segurança para o trânsito. Ela, num caminhar leve e elegante, atravessa sem maiores problemas.

 

Neste meio tempo – entre a parada do segurança e o caminhar da bela – faço também minha travessia. Não é que nesse exato instante o segurança vira-se, não completa sua função de ajudar os pedestres e sai como se nada tivesse acontecido para olhar a jovem que trajava um vestido preto que levemente caía deixando ombros e parte das costas desnudas? Está certo, nesse caso até eu faria o mesmo. É o único momento em que o perdoo. E vocês não fariam o mesmo?

 

PS: esse texto não objetiva a generalização



Escrito por Marcos Thadeu às 18h41
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Dessas coisas que só acontecem no futebol

Futebol é mesmo fascinante – onde será que eu li isso? É fascinante em todos os aspectos. Até mesmo nos não tão menos importantes aspectos fora dos campos, aqueles que os torcedores não deveriam saber, mas que vez ou outra acaba sendo noticiado pelas mídias tradicionais, alternativas ou por aquelas inimagináveis, como a mesa do bar, por exemplo.

 

Freqüento jogos há tempos, bares, idem. Bares de estádio, de fato e como ponto de encontro sagrado pré e pós-partida, agora mais constantemente. É lá que brindamos a esperança, bebemos a inspiração e tomamos as opiniões e críticas daqueles que, como você, também exageram na dose, a do amor pelo time. Esse brinde todo, de saúde em saúde, é que, no fundo, faz a alegria e a (não tão) saudável atividade, do ponto de vista alcoólico, de ir ao estádio. Pois sempre há a superstição: um dia, numa falta cobrada pelo jogador tal, eu tomei uma pinga e o time fez um gol. Sete faltas depois você está bêbado e seu time empata em zero a zero.

 

Conversar corriqueiramente antes, durante e depois é daqueles hábitos que faz o monge. E é por isso que incansavelmente eu me desloco de casa para o estádio em quase que todas as partidas, até mesmo aquelas na qual eu não piso na arquibancada, mas sentir a energia, a vibração e todo aquele clima me fazem sentir bem comigo mesmo, pois me renova mesmo que o resultado seja desfavorável.

 

Mas é aí que a coisa entorta. O caso é que algumas coisas realmente me tiram do sério. Não, antes que você pense alguma coisa eu não sou daqueles que vai ao aeroporto, segue jogador na fila do banco ou algo parecido. Sou apenas mais um torcedor, com minhas manias, que vê o jogo pela ótica mais pontual (?) e mais racional, mesmo que a irracionalidade seja mais evidente depois de umas a mais.

 

Claro que para ser franco não acredito que torcedores assim sejam a maioria. Se fossem é bem provável que os estádios estivessem mais seguros às famílias e às crianças. Não que eu ache que elas devam parar de ir, de forma alguma. É uma questão mais além, a da violência, mas que não cabe aqui. Aqui, na verdade, vai além do simplesmente ver o jogo inerente às sensações e às variações de humor que qualquer torcedor tem durante os terríveis ou empolgantes 90 minutos.

 

As sensações vão antes e além do apito do juiz. Por exemplo, aquela velha conversa de bar que sempre tem em qualquer tipo de torcedor e que geralmente causa grande irritabilidade: a mais o grupo está rachado, fulano não fala com sicrano, o outro foi para a balada, aquele ali ganha tanto por mês e deixa grande parte no bar do beltrano porque entorna o caldo todo dia. E ficam irritados quando o resultado não vem. Quando vem, também ficam, mas se esquecem rapidamente e, em grande parte, também entornam o caldo.

 

Não cobro jogador para que ele vá para casa às 20 horas e que às 23, no máximo, já esteja dormindo. Eu não faço isso, oras. Não cobro por ele ir para a balada de terça-feira – quem nunca fez isso? Não dá para questionar a relação que cada um tem no grupo. Ou será que você, leitor, por exemplo, gosta de todo mundo do seu trabalho? Difícil, não é mesmo? Claro, nem todos os santos batem.

 

Mas, ao contrário, você também não fica de lero-lero pelos cantos do trabalho, evitando pessoas e situações. Afinal de contas, assim como no campo, seu trabalho também é coletivo e, sendo assim, você também depende das pessoas com quem não está acostumado a ter um bom relacionamento. E é aí que o legítimo torcedor, aquele que protesta com a garganta dentro do estádio, e não com punhos fora (ou, às vezes, dentro), tem sua força devidamente reconhecida e suas reivindicações, por hora, atendidas.

 

Nem sempre dá resultado, mas o legitimo torcedor, com o coração estraçalhado, pelos menos tem a sensação de que “sua indignação” estava lá. Azar do torcedor que o resultado não veio. Os que estavam em campo, com algumas exceções, talvez pouco se importam. Mas aqueles que pagam (caro) o ingresso exigem um mínimo de respeito. Exigem um mínimo de consideração.

 

Para encerrar e para não me estender ainda mais, torcedor legítimo é aquele que exige do time vontade, raça e corram em campo. Aqui sem eufemismo quanto amor à camisa, pois raros os casos que ele ainda existe. Torcedor legítimo não quer saber se fulano não fala com sicrano fora de campo. Se eles se odeiam fora, é de bom tom, para todos, que se amem dentro de campo, que se entreguem.

 

Por fim, torcedor legítimo é aquele que pede força de comando, pulso e voz firme para comandar aqueles que fazem a alegria de muitos brasileiros. Que às vezes é a única alegria, o único evento cultural e esportivo de que dispõe na sua árdua vida de brasileiro. Se gosta de chegar em casa todo dia às 06 horas mamado, se gosta de comer sempre em rodízio de carne contrariando os médicos, se não fala com um ou outro, se acha que ganha menos que o outro, pra mim isso não importa.

 

A história, por si só, diz que grandes times e grandes campeonatos foram conquistados por equipes consideradas “rachadas”, mas que pelo menos tiveram a consciência de respeitar aqueles que, freneticamente, cantavam e vibravam nas arquibancadas e bares por esse mundão de meu Deus e a si mesmo, pois, afinal de contas, tinha aquele no comando que dizia: não gosta de um, não suporta o outro? Beleza, mas lá dentro coloca a bola no gol.

 

Por isso, por ver que a história é a única prova de que teoria e prática se fazem com notável fluência, é que, pra mim, o mais importante, de verdade, é que o zagueiro chute a bola para o mato, que o volante desarme a bola no meio de campo, que o meia arme a jogada e dê passes para gol e que o atacante coloque a bola na rede.

 

Será que é pedir muito? E sim, eu estou puto!



Escrito por Marcos Thadeu às 02h18
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